A idéia era escolher justamente algo relativamente barato e que não aparentasse ser uma porcaria completa. Mas mais importante do que isso: algo que tivesse continuidade. Tenho uma certa simpatia pelas tiras do Homem-Grilo, mas seu especial durou apenas uma edição, sem planos de ir pra frente. Penitente já estava com sua segunda edição lançada, planos para especiais envolvendo outros personagens e uma terceira edição engatilhada.
Diacho, se havia passado da primeira edição é porque não era tão ruim quanto aparentava. E, lendo entrevistas do autor sobre o personagem, vi que a imagem que eu tinha do personagem podia ser equivocada.
Roteiro: Lorde Lobo (com colaboração de Gerson Witte na primeira história)
Desenhos e arte-final: Nel Angueiras
Cores: Lorde Lobo
A primeira edição possui duas histórias razoavelmente curtas. Ambas escritas por Lorde Lobo e desenhadas por Nel Angueiras. Há uma interessante introdução, que tenta dar ao personagem um pano de fundo, uma história mais profunda. Sem se preocupar muito com sua origem e seus propósitos, Lobo “vende” logo o personagem dentro de uma aventura.
A trama é simples: jovens arruaceiros perseguem um pichador que havia “violado” sua “área” e deveria ser punido. Perseguição, desespero...
...até a intervenção do Penitente. A história termina de forma previsível, tão violenta quanto eu já esperava que fosse, mas ao mesmo tempo mostra que o Penitente é um pouquinho diferente dos personagens que lembra.
Inevitável não compara-lo com Spawn pelo conceito (assassino que voltou dos mortos) e com Grifter pelo visual (máscara vermelha cobrindo o rosto). Quando questionado acerca dessas semelhanças, Lobo cita Violent Messiah (que, visualmente, até lembra Spawn) e o Jack Flag da Marvel (que também usa uma máscara vermelha). Não considero essa a melhor das respostas, pois o Penitente, a parte da evidente semelhança na origem, possui uma temática diferente. Quando pede que orem por sua alma, o Penitente surpreende o leitor e mostra que pode haver mais do que mostra a superfície. No mais e mais, uma história mediana desenhada de forma competente por Angueiras – apesar dele derrapar num ou noutro quadro, o salto é positivo.
A segunda história é, pra mim, o melhor da edição, e mostra que a revista não serve apenas pra retratar as diferentes formas de se matar um criminoso. Nela, o Penitente vai ao encontro de um rapaz prestes à cometer suicídio. Um olhar mais preconceituoso retrataria aquela velha história de “suicidas são pecadores, vão queimar no inferno”. Um escritor menos comprometido poderia acabar criando uma história exageradamente melosa. Lobo acerta nessa – bem mais até do que na primeira história – e, ao mesmo tempo que já demonstra uma forte caracterização do personagem em tão poucas páginas, faz uma trama curtinha sem ofender o leitor. Em síntese, faz valer o preço de capa.
Argumento e Roteiro: Lorde Lobo (Edvanio Pontes co-roteiriza a primeira história)
Desenhos: Israel Gusmão (primeira história) e Nel Angueiras (segunda)
Arte-final: Israel Gusmão (primeira história) e Nel Angueiras (em parte da primeira história e em toda a segunda)
Cores: Lorde Lobo
A segunda edição é um pouquinho mais complicada. Ao mesmo tempo que entrega aquilo que eu “pedia” – uma história mais longa e que aparentemente começa a formar uma mitologia pro personagem – o faz de forma, digamos, pouco satisfatória.
Não é ruim – ainda vou falar aqui dos quadrinhos brasileiros realmente ruins que tenho lido – mas, comparado ao que a primeira edição prometia, pode ser considerado, se muito, regular. A trama é bem clichê: o Penitente surge para impedir um ritual satânico, aonde uma virgem seria sacrificada. Sabe aquela história de que Penitente poderia ser mais do que mostrar as diferentes formas de assassinar uma pessoa? Bem, nessa história,
Os desenhos não são de Nel Angueiras. Israel Gusmão entregou um trabalho até mais bem cuidado, com um nível legal de detalhamento, mas parecia indefinido entre um estilo mais europeu (quando retrata a líder do culto) ou mais oriental (a virgem que iria ser sacrificada), o que incomoda às vezes.A história termina com um possível gancho pra histórias futuras. Vamos ver como continua. Há ainda uma história curta, de apenas duas páginas, com arte de Angueiras. Por ser tão curta, diz muito pouco – fica até difícil avaliar.
Apesar da série ainda não ter dito à que veio, é visível o esforço dos envolvidos em entregar um bom trabalho. Vale a conferida. Vale continuar acompanhando.

